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Artigo

Nutrição e treino

Um alimento para miúdos e graúdos – parte I

Por Filipa Vicente

25.05.2020 | 0 Comentários | 2 Likes

No final da década de 60, as entidades de referência nas recomendações alimentares e nutricionais, como a American Heart Association, colocavam o ovo nos alimentos a evitar sobretudo se tivesse uma doença do foro metabólico ou elevado risco cardiovascular. Estas diretrizes baseavam-se na crença de que era necessário reduzir a ingestão de colesterol para diminuir os níveis plasmáticos de colesterol total e a incidência de doenças do foro cardiovascular (1). 
O principal argumento para estas recomendações era o teor de colesterol do ovo tendo sido sugerida uma ingestão não superior a 300mg/dia e de no máximo 3 ovos por semana. Atualmente sabe-se que não existe uma evidência científica robusta que relacione a ingestão de colesterol, do ovo ou outra fonte, e a dislipidemia e risco cardiovascular (2).
O ovo, como outros alimentos, deve ser incluído nas porções recomendadas como fonte de proteína animal. A boa notícia é que a sua ingestão traz inúmeros benefícios comprovados na saúde humana graças à sua riqueza nutricional, sendo também uma alimento de baixo custo pelo que pode ser uma excelente opção para refeições mais económicas mas ainda assim nutricionalmente equilibradas.
Além de uma fonte proteica de excelência como referimos anteriormente, o ovo fornece nutricionais essenciais como a colina e o ácido docosahexanóico (DHA), especialmente importantes nas idades mais jovens: A colina tem um papel determinante na função e estrutura das células neuronais. Os estudos observacionais estimam que crianças e adolescentes ingerem em média 256mg por dia quando a ingestão adequada é de 550mg.
Um ovo médio fornece 27% da ingestão recomendada o que seria um excelente “suplemento” a outras fontes, na sua maioria de fonte animal como a carne e o peixe (4,5).
O ácido docosahexanóico é um ácido gordo sintetizado a partir do ácido alfa-linolénico (família ómega 3), sendo igualmente importante na estrutura e função neuronal. A suplementação com DHA é frequentemente vista como terapêutica no tratamento do défice de atenção e na melhoria da memória (6,7).

Num estudo publicado no Nutrients (8), demonstrou-se que num padrão alimentar que incluía ovos, a sua ingestão estava associada a uma ingestão mais elevada de proteína, ácidos gordos mono e polinsaturados incluindo o DHA, diversas vitaminas incluindo a D, E e a A mas também a B2 e minerais como o potássio e o fósforo. Tinham igualmente menor ingestão de açúcar (total e adicionado). Estes resultados foram ainda mais interessantes nas famílias de menor estatuto socioeconómico em que um alimento nutricionalmente rico e de baixo custo pode ser um contributo nutritivo de destaque para esta faixa etária.
Ainda assim merece atenção, a necessidade de melhorar a literacia alimentar uma vez que os ovos devem ser ingeridos num padrão alimentar equilibrado que tenha também cereais inteiros, hortícolas, frutos frescos e leguminosas, alimentos que por vezes são diminuídos no padrão alimentar dito “ocidental”. A inclusão de ovo na alimentação da criança pode por isso ser interessante para melhorar o seu estado nutricional contribuindo não apenas com proteína de elevado valor biológico mas também nutrientes essenciais no seu desenvolvimento neuronal e na performance cognitiva. Um ovo cozido ou mexido são uma excelente opção para
uma sandes em detrimento de produtos de charcutaria. Além disso são versáteis e pode preparar deliciosas panquecas (ovo, aveia e banana) para pequenos-almoços e lanches saborosos e nutritivos.

Referências
(1) American Heart Association, Committee on Nutrition . Diet and Heart
Disease. American Heart Association; Dallas, TX, USA: 1968
(2) McNamara D.J. The Fifty Year Rehabilitation of the
Egg. Nutrients. 2015;7:8716–8722.
(3)  Fernandez M.L., Calle M. Revisiting dietary cholesterol recommendations:
does the evidence support a limit of 300 mg/d? Curr. Atheroscler.
Rep. 2010;12:377–383. doi: 10.1007/s11883-010-0130-7. 
(4) Lutter C.K., Iannotti L.L., Stewart C.P. Cracking the egg potential during
pregnancy and lactation. Sight Life. 2016;30:75–81.
(5) Lutter C.K., Iannotti L.L., Stewart C.P. Cracking the egg potential during
pregnancy and lactation. Sight Life. 2016;30:75–81.
(6) Sheppard K.W., Cheatham C.L. Omega-6/omega-3 fatty acid intake of children
and older adults in the U.S.: dietary intake in comparison to current dietary
recommendations and the Healthy Eating Index. Lipids Heal. 2018;17:43. doi:
10.1186/s12944-018-0693-9.
(7) Kuratko CN, Barrett EC, Nelson EB, Salem N Jr. The relationship of
docosahexaenoic acid (DHA) with learning and behavior in healthy children: a
review. Nutrients. 2013;5(7):2777–2810.
(8) Papanikolaou Y, Fulgoni VL 3rd. Egg Consumption in U.S. Children is
Associated with Greater Daily Nutrient Intakes, including Protein, Lutein +
Zeaxanthin, Choline, α-Linolenic Acid, and Docosahexanoic Acid. Nutrients.
2019;11(5):1137. Published 2019 May 22. doi:10.3390/nu11051137

Nutricionista 1369N
Filipa Vicente

Professora Auxiliar no Instituto Universitário Egas Moniz

Licenciada em Ciências da Nutrição (ISCSEM)

Doutora em Alimentação e Nutrição (Universidade de Barcelona)

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