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Artigo

Dicas e Testemunhos

Noutra vida estimo ter sido um ogre

Por Luís Filipe Borges

02.12.2020 | 0 Comentários | 0 Likes

As pessoas andam mais místicas do que nunca, dá-me ideia. Talvez seja do confinamento, da neura psicológica e do isolamento impostos pela pandemia, mas algo faz a natureza humana virar-se de braços abertos para o transcendente. Há dias, na enésima conferência por Zoom, uma das participantes decidiu perorar sobre quem terá sido noutra vida: uma feiticeira da Idade Média que ajudou muitas almas e escapou à fogueira por artes diversas e sorte bastante. A reunião virtual era um briefing corporate mas – who cares? – deve ter suposto a moça. Preciso de alguém que me ouça (e
é já, catano). Desabafar com estranhos muitas vezes é solução.
Intriga-me, porém, um padrão que julgo identificar em todos aqueles dados a estes palpites respeitantes à reencarnação e vidas passadas. Hão-de reparar que todos foram grandes guerreiros ou princesas, imperadores ou artistas de mérito,
sacerdotisas ou génios avulsos. Nunca encontrei ninguém que tenha sido meretriz de um conde bárbaro ou caixeiro-viajante, faxineiro da corte ou limpa-chaminés nos primórdios da era industrial.
O Natal aproxima-se e 2020 permanece pródigo em surpresas macabras. O Sporting é líder isolado, mentes brilhantes dizem adeus, o Chega cresce, as fake news predominam. Se este ano fosse uma personagem de ficção seria o Grinch, sádico como nunca e totalmente desprovido de sentido de humor.
Pessoalmente encontro vantagens diversas neste Natal mais solitário de sempre. Como na minha família quase todos seodeiam, o Covid é uma ótima desculpa para que o distanciamento físico prevaleça, além da poupança tremenda em presentes.
Antecipo, portanto, uma quadra em que o bacalhau com ovo cozido, grão e couves será degustado somente por este
escriba e sua esposa, com restos depenicados pelo gatoHaruki e pela cadela Indie, enquanto o Tomé absorve resquícios de rabanada via cordão umbilical. Em vez de licor brinda-se com FullProtein e está feita a festa. Até devemos evitar a “Música no Coração” na TV, não vá a Julie Andrews provocar-nos um ataque de fúria com as suas cantilenas no ar puro dos verdejantes montes austríacos.
Nota-se muito o mau humor? É porque noutra vida devo ter sido um ogre.

Comediante, Argumentista, Açoriano, Benfiquista (não necessariamente por esta ordem)
Luís Filipe Borges

Guarda-redes Amador

Nadador Incansável

Frequenta o ginásio com tremendo masoquismo

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